quarta-feira, 15 de agosto de 2012

UMA BOCA, DOIS OLHOS, DOIS OUVIDOS…


UMA BOCA, DOIS OLHOS, DOIS OUVIDOS…

            A Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura – Unesco, definiu quatro pilares da educação para este terceiro milênio.
            Servem para todos. São aprendizados. E a utilização do verbo já é uma provocação àqueles que se petrificam em conceitos, acumulam apostasias, ou se deliciam no confortável leito do dogmatismo e seu macio travesseiro conservador.
            Os quatro pilares da Unesco nos convidam a uma revisão permanente sobre o que entendemos por acúmulo de conhecimento. Unificam práxis com experimentalismo teórico, estabelecem uma sinergia de cada um com o todo e todos.
 
            O primeiro: “Aprender a Conhecer”.
            Ter consciência da necessidade de aprender a aprender, de admirar-se com o novo, buscar o desconhecido, sair da acomodação, reconhecer que todo conhecimento, mesmo o adquirido mais recente, tem seus condicionamentos e limitações. Abrir nossa mente para aprender sempre é um exercício um tanto difícil, mas possível, desde que saibamos colocar aquela pitada de humildade necessária.
 
            O segundo: “Aprender a Fazer”.
            Aqui, compreendido como a antítese do diletantismo, da escravidão da retórica, da embromação do discurso. Longe de ser um elogio ao pragmatismo desalmado, o “aprender a fazer” significa aplicar a capacidade de resposta frente ao desafio apresentado. É o mover dinâmico da vida, o berçário das experiências sociais e de trabalho. Fazer para ver e sentir a eficiência e a eficácia.
 
            O terceiro: “Aprender a Conviver”.
            Estimular a descoberta progressiva do outro, libertar-se da visão antropocêntrica do homem como centro do mundo, do “eu” como medidor egocêntrico da realidade. Sem perder a individualidade (não confundir com individualismo), devemos ser e estar numa relação interdependente com o todo. O desligamento dessa teia é que faz o tão nocivo desencanto, insensibilidade, pouca reverência às maravilhas da natureza, manifestações da crise ética que se abate sobre nós nesses tempos modernos. Participar, produzir saber, associar-se a sentimentos e pensamentos. Conviver é potencializar a natureza, a qualidade e os traços comuns.
 
            O quarto: “Aprender a Ser”.
            A busca pelo desenvolvimento pleno da pessoa humana. O estímulo à criação de pensamentos autônomos e críticos, à formulação de próprios juízos de valor, resultantes da valorização do espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal, capacidade de se comunicar e espiritualidade.
 
            Esses são os quatro pilares.
            Como na canção de Kátia de França, aqui estão “quatro jogadores sobre a mesa dando as cartas do jogo surdo da vida”.
            Um grande desafio.
            Não somente para professores e educadores. Mas para políticos, economistas, técnicos de todas as áreas, mães e pais, filósofos e sonhadores: aprender a conhecer, fazer, conviver e ser.
Aparentemente coisa sem importância. Mas, dado o que temos visto no mundo de hoje podemos dizer, ao menos, que para boa parte das nossas ações demos a direção errada, ou tivemos sonhos equivocados (ou por acaso você é daqueles que acha que todo sonho é válido?).
            Os quatro pilares da educação da Unesco mostram que precisamos buscar um equilíbrio entre nosso empenho político-cultural e nosso espírito analítico. Parafraseando o filósofo italiano Norberto Bobbio, precisamos repor a política, a cultura, as relações sociais, como um universo de paixão, contrastes e contradições. Isso fere todo esquematismo, a comodidade, o cartesianismo exagerado e definitivo. Necessitamos da diversidade sendo colocada elegantemente na unidade da vida, da práxis social e coletiva, no enriquecimento da condição humana.
            Muito enfadonho?
           Então veja as seguintes situações ou escolhas que tomamos (por vezes até inconscientes da gravidade), durante nossas vidas.      
Você prefere brigar ou lutar? Quem briga, prende-se na superfície e nas aparências do conflito apresentado. É o forçar, o aborrecer, a negação do diálogo.Quem luta, muda conteúdo, aprofunda conceitos, valoriza e admira a qualidade do oponente (que pode ser uma idéia, uma direção proposta, uma propriedade nova ou diferente). Soma-se na luta.
            Você prefere ouvir ou escutar? Quem ouve, geralmente exerce o sentido físico da audição e se satisfaz com isso. É possível, e até mais cômodo, ouvir uma contradição com desdém, intolerância e hipocrisia. Comumente, sem a humildade devida, ouvimos com falsa atenção uma idéia que se apresenta superior à nossa. Quem escuta, dá importância, aprende com o diferente, toma consciência do que se apresenta, potencializa a dialogia, procura pontos em comum naquilo que é aparentemente incompatível. Quem ouve, diminui. Quem escuta, amplia.
            Você prefere tolerar ou respeitar? O sofrimento, o aturar e o suportar estão na base do tolerar. É certo que em alguns casos a tolerância é necessária, tendo em vista uma idéia muito primária ou inicial. Mas, tolerar por tolerar é a negação da gratidão. É lidar com o antagonismo da forma mais cruel: a suprema indiferença. Quem respeita, leva sempre em consideração a integridade do diferente, procura ser prudente, cuida bem da assimilação de uma nova idéia, sabe colher e doar com dignidade, aprende a olhar para as experiências passadas e remete ao futuro propostas mais refinadas.
            Por fim, você prefere falar ou conversar? Aprendi nestes tempos que professar é simples; educar, mais complexo. Quem só fala faz prevalecer sua irredutibilidade, conta de si, delicia-se com o jorrar de seus fonemas. Aqui está uma das características do pseudo-líder em quaisquer áreas, do superficial, da manifestação individualista e arrogante externada sempre de forma autoritária (muitas vezes, sem autoridade). Já quem conversa, escuta, sonda o pensamento do outro, busca intimidade, compara e mistura idéias para novas práticas e conceituações. Quem conversa, segue um princípio que aprendi com um velho sábio acreano, seu Manoel Araújo: “Deus nos deu dois olhos, duas narinas, dois ouvidos, e uma boca”. Quem conversa, diminui erros, divide experiência, soma conhecimento e multiplica acertos.
 
            Quatro aprendizados.
            Quatro atitudes.
            Quatro letras da palavra vida.

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